terça-feira, 9 de junho de 2026

Os Traços da Gola


 

Os Traços da Gola

Outro dia peguei um velho uwagi (parte de cimo do kimono de karatê) que há muitos anos repousava guardado entre lembranças e fotografias. O tecido já não tinha o branco de antigamente. O tempo havia deixado suas marcas, como sempre deixa em tudo o que é usado com sinceridade.

Foi então que meus olhos pararam na gola.

Ali havia uma inscrição feita à mão, quase apagada. Alguns traços ainda resistiam. Outros haviam desaparecido sob o desgaste dos anos. Tentei ler. Virei a peça de um lado para o outro. Aproximei os olhos. Fotografei. Ampliei a imagem.

Nada.

As letras pareciam guardar um segredo.

Por alguns instantes, fiquei preocupado em descobrir exatamente o que estava escrito. Seria meu nome? Um termo japonês? Uma dedicatória? Uma palavra que o tempo decidiu esconder?

Mas, enquanto observava aqueles traços desbotados, uma lembrança veio inteira, como se nunca tivesse ido embora.

Eu era faixa vermelha.

Havia acabado de realizar meu exame. O coração ainda carregava a mistura de cansaço, ansiedade e alegria que só quem vive o karatê conhece. Foi então que o Kyoshi Benedito Nelson me chamou.

Perguntou meu nome.

Na verdade, perguntou quem eu era.

Porque, embora meu nome fosse Francisco, todos me conheciam por outro nome.

Barros.

Ele pegou a caneta e escreveu na gola do meu uwagi.

Naquele momento eu não imaginava que aquele gesto simples atravessaria décadas. Para mim era apenas uma inscrição. Para ele, talvez fosse apenas um costume. Mas o tempo tem o estranho poder de transformar pequenos gestos em grandes símbolos.

Os anos passaram.

Vieram os treinos, as dificuldades, as conquistas, as graduações, os alunos, as responsabilidades. O velho  faixa vermelha continuou caminhando por tatames diferentes, que tantas vezes lhe ensinou humildade.

Hoje, muitos me conhecem como Sensei Barros.

Poucos sabem que existe um Francisco por trás desse nome.

E foi então que compreendi algo curioso.

Talvez eu nunca descubra exatamente o que está escrito naquela gola.

Talvez a tinta tenha levado essa resposta consigo.

Mas já não importa.

Porque o verdadeiro significado daquela inscrição não está nos traços.

Está na história.

Está no mestre que escreveu.

Está no aluno que recebeu.

Está na jornada que veio depois.

A tinta quase desapareceu.

O tecido envelheceu.

Os caracteres se perderam.

Mas aquilo que realmente foi escrito naquele dia continua perfeitamente legível.

Não na gola do velho uwagi.

Mas na pessoa que me tornei.

Oss.

Sensei Barros 🥋📜

 

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